Lispector, Clarice. - "A Série do desapego" pt. 03

Eu confesso que é um pouco difícil escrever desta vez. Talvez até mais do que eu imaginei.
Eu venho passando por uma semana com muitas revelações, um tanto quanto sutis individualmente, mas significativas quando postas lado a lado.

E então a tempestade veio, me atordoando os pensamentos e me tirando os alicerces.
Me tirando do que me era confortável e me trazendo o caos.
Por alguns instantes eu não sabia onde estava, quem era. Eu só queria sair da tempestade, secar a água que escorria pelo rosto.
Me encontrei depois no mesmo lugar, mas ainda estava perdida. Eu sabia que era hora de me deixar ser. De deixar a água lavar e levar tudo o que um dia eu fui. E tudo o que eu pensei em ser um dia. E todos os planos que eu fiz. E todas as expectativas. E toda a volatilidade do meu estar.

Pois bem, mobem. Eu deixei a água lavar e ela está levando. Tirando de mim tudo o que há de você. Aos poucos - e eu espero que bem rapidamente - neutralizando o seu cheiro que ainda insiste em ficar impregnado em mim, tirando o seu gosto que ainda persiste em minha boca.

A bruxa dizia que jamais se esquece a pessoa com quem se dormiu. Eu sei que vou esquecer de muito, e lembrar da maior parte, mas eu não queria que você soubesse que eu já te quis. E trocar o quis pelo quero não consta nos meus planos.

Assim como está dito, esta série se trata mais de mim do que de qualquer outra pessoa. É preciso que eu tire um tempo pra mim, pra me ver, me perceber. Eu necessito saber um pouco mais do meu ser, e pra isso eu tive que te deixar ser levado pela enxurrada. É egoísta a minha atitude, talvez, Mas foi só o que me restou.

Não encare isso como um adeus, pois a chuva que cai é sempre a mesma, mas em lugares diferentes.
Agora é hora da partida, pois só de mim eu quero ser.