Meu cais.

Teu cheiro.
Teu cheiro é o que constrói meu cais.
Você é todo o meu alicerce, 
o meu controle.
Você é o que me orienta,
me dá forças para continuar.
Você me dá o que eu deveria encontrar em mim.

Você é parte do meu eu,
do meu ego.
Você é um pedaço do que restou de mim,
a minha fundação.
Você é o meu tudo,
onde posso descansar o meu nada.

Você é toda a minha ilusão
e a minha realidade.
Você é o meu norte 
e a minha perdição.
Você é o farol que me orienta
e a torre que me aprisiona.

Você é o meu conselheiro
e a minha má influência.
Você é o meu passado
e o meu futuro inexistente.
Você é meu barco
e o meu cais.


Um afago e uma nuvem de rosas.

Um afago. O suficiente pra te levar aos céus e planar como se fosse numa nuvem de rosas.
Diziam os sertanejos que há uma nuvem de lágrimas, mas a nuvem é feita d'outra coisa.

Um afago e uma nuvem de rosas estão aqui há muito tempo esperando serem escritos. E finalmente chegou a hora. Eu sinceramente acho que desequilíbrios psicológicos somente existem para nos inspirar. Estar na normalidade não inspira, não faz. Estar normal não quer dizer nada, só te faz existir.
Mas existem horas em que você existe, mas na verdade não quer existir. Ou existe demais e só quer ser menos. Ou existe de menos e quer ser um pouco mais.
É complicado, normalmente estes momentos não condizem com a realidade vivida. 

Há algum tempo eu não apareço por aqui. Na verdade até estive, mas preferi deixar no rascunho todas as minhas ideias. Durante esse tempo, eu quis existir um pouco mais, ser mais percebida. E tudo isso me custou o sossego. Comecei o ano almejando o sossego que tanto me falta, e pela metade dele estou mais à vista do que nunca.
Em certos momentos, a minha grande vontade é desaparecer e fazer com que tudo isso se assossegue. Não desejo mais que isso se acabe, é covarde demais. Mas um pouco de quietude seria bom.
Eu preciso de um tempo comigo (e dessa vez de verdade), só pra repensar na vida e dar um rumo pra mim. Há coisas que consomem tanto as suas energias, que você não mais se doa, você se vende, se obriga. Isso não é bom, faz com que a cada dia você se perca um pouco mais.
Nós não precisamos ser consumidos, nós precisamos acrescentar na vida do outro.
Só falta isso.
Talvez sermos um pouco menos egoístas e vaidosos, e sermos mais compreensivos.

Compreensão é algo que eu raramente recebo. Na verdade acho que eu deveria escrever um texto somente contando todas as vezes em que eu não sou escutada. Eu nunca serei a dona da razão, mas só queria entender por quê todas as pessoas custam em fechar os ouvidos para mim. Será que a minha opinião é tão insignificante assim? Ou será que a verdade dói tanto que é mais fácil mascará-la do que ouvi-lá? Isso acontece em várias situações. Mas quando eu me recolho e apenas finjo gostar, eu sou quieta demais, suspeita demais. Difícil compreender.

Eu sei que está tudo um pouco sem sentido, mas é que eu preciso colocar pra fora o que está aqui há tanto tempo. Nos rascunhos eu deixei algumas coisas falando sobre a minha pálida agonia, alguns pequenos começos de novos episódios d'A Série do Desapego, contos sobre a vida, mas nada que exprima o que eu sinto agora.

Agora eu sinto como se um caminhão de algumas toneladas tivesse passado sobre a minha cabeça, mas fazendo com que um peso enorme saísse das minhas costas. Eu sinto como se um pôr-do-sol tivesse acabado de acontecer, trazendo a escuridão, notívaga e inquietante, mas silenciosa e sob o brilho da lua. E das estrelas, onde cada uma delas é um ponto de esperança. Eu sinto agora uma tristeza por tudo o que se foi, mas uma felicidade radiante na espera pela próxima aurora. A luz não cega e nem me amedronta, eu espero por ela mais do que tudo.

Durante esse tempo de ausência eu percebi em pequenos insights que quando tudo parece estar acabado, é porque é apenas o começo. Eu sei que isso é um clichê apavorante, mas é a realidade das coisas. Naquele dia em que você não acorda bem, em que há brigas e fins, tudo é apenas um recomeço.

Recomeçar é o que eu irei fazer. Sozinha, ainda que essa palavra me afronte, lidando com os meus próprios demônios.

E se você ler isso, o que eu aposto que não irá fazer, quero que entenda que não há o que entender. Nós já fomos. Nós não existimos. "Nós" não há.