Comigo sempre estavam um caderno (daqueles de folhas quadriculadas) e um lápis grafite. Eu tinha seis ou sete anos, e ainda estava descobrindo o mundo do ''escrever''. Então, eu me sentava no primeiro degrau e grafava uma palavra. Depois, eu pensava em mil maneiras de derivá-la. O rato virava pato, que virava gato, que virava ralo e assim por diante. Fazia isso apenas com uma ''palavra-mestra'' por dia, até que minha mãe chegasse. Isso nunca era visto por mim como rotina, pois cada vez que eu escrevia uma palavra, eu me redescobria. Passei muitos meses fazendo a mesma coisa, até que um dia eu resolvi mudar. Ao invés de derivar as palavras, eu rimei as palavras. E sem querer saiu um poema, o primeiro que escrevi na vida. Ainda com um garrancho gramatical, eu me impressionei com aquilo, pois era muito pra mim. Eu nunca imaginara nos meus seis anos ter escrito aquilo, mas escrevi. Nesse dia não esperei minha mãe chegar, só entrei em casa, fechei o portão e fui pro meu quarto. Sentei no chão e pensei em como aquelas palavras tão ''adultas'' haviam saído da minha mente infantil. Cinco minutos depois saí do quarto e mostrei o poema pra meu pai. Ele não acreditou. Cogitou a ideia de eu ter plagiado o tal poema de algum livro durante aqueles meus minutos no quarto. Eu estava quase delirante com a possibilidade de ser uma escritora, e de quiçá publicar um livro com aquele meu único poema. Minha mãe chegou em casa e coloquei o caderninho nas mãos dela. Os olhos fitavam aquelas palavras e veio o veredito: ela também desacreditou de mim. Aquilo foi muito. Peguei o caderno, guardei na gaveta e esperei o dia seguinte. Às 19:00, repeti o meu ritual, mas tentei escrever algo parecido com aquilo. Foi em vão. O máximo que saiu foi ''o João comeu pão e vomitou no chão. Sua mãe o fez lamber sabão''. Eu sempre soube que a minha paixão pela escrita começou assim, mas queria resgatar a minha raiz. Quase dez anos depois, estava agora tomando um banho e tentando lembrar da palavra-chave daquele poema. Sei que começava com 'R' e era repetida várias vezes, mas com terminações verbais diferentes. O caderno onde o poema estava escrito foi perdido numa das minhas mudanças. A partir daí perdi a minha essência. Mas ao menos eu lembro que a palavra começava com a letra ''R'', o que já é um avanço. Ou não.
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