Padecer. - "A Série do Desencanto" pt. 02

Permaneci ali por tantos dias, com os olhos fixos no horizonte.
A cada dia ele me puxava, queria me dizer alguma coisa. Mas não sabia como.
Sentada fiquei, esperando que alguém me dissesse o que tinha de ser feito.
Íam-se sóis, luas, ventos e tempestades.
E lá eu continuava.

Eu esperava que o horizonte me trouxesse a resposta para um dilema que somente eu seria capaz de resolver.
Eu precisava, de uma vez por todas, acabar com aquele fantasma que me assombrava há tanto tempo, ou então ali ficaria feito pedra, com o pesar dentro de mim para sempre.
Eu juro que uma parte de mim desejava se libertar, mas todo o resto já estava tão habituado à solidão do luar que eu já me sentia em casa.

Era uma casa sóbria, fria, assim como eu já disse que eram seus olhos.
Ali sentada eu parecia uma criança a te admirar, iludida nos meus sonhos de eternidade.
No meu peito não mais tinha um coração, ali só batia o teu.
Eu entreguei minha vida à você, e tudo o que fez foi me deixar ali. Sozinha, olhando o nada.

Sabe, quando amanhecia, e o sol cobria meu rosto, eu não o sentia.
Suas luzes passavam por mim e nem um movimento me causavam.
Eu já não era mais nada, mas continuava ali, no mesmo lugar.
Ficava te esperando, na esperança de talvez você perceber o quanto eu te queria.

O meu querer já beirava o abismo quando me dei conta. Porém, era muito tarde para regressar.
Me bastava, mais uma vez, ficar ali.
Observando o que achava que era você, mas na verdade eu não te via.
Na minha mente doentia eu via o seu sorriso, me corroendo de ponta a ponta.
Eu sentia o frescor do seu hálito, entupindo minha respiração e minhas veias.
Eu não sentia o meu coração, pois você o pegou.

O pegou e levou consigo quando me deixou frente ao nada esperando tudo.
Mas tudo pra mim era só você.
Nunca mais eu te vi. Nunca mais te senti.
Mas eu ainda estou lá.

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