Seduza

          Amanhecia e o sol cobria parte do seu rosto. A luz era um véu cintilante que empalidecia sua vívida e ruborizada face. Você ainda dormia e eu observava toda a sua plenitude em leves inspirações e poucas expirações. Você respirava bela mas me faltava o ar ao te ver ali pois não conseguia conter a minha felicidade em ter tanta perfeição em minha frente. 
          Tive medo de me mover e desfazer a pintura que ali havia, da musa mais primorosa que até então encontrei. Eu me sentia Zeus comandando todo o Olimpo, tendo todos os poderes que nenhuma estrela no universo jamais viu. Eu tinha todo o poder do universo, porém bastava um suspiro seu e eu me derretia.
          A claridade que aquecia sua pele transformava o frio em vapor e lentamente você despertava do seu sono. Olhou pra mim e com um sorriso no canto da boca me desejou bom dia. Sua voz era agoniante. O trêmulo do seu cantar ruía nos meus ouvidos em eternos zumbidos apavorantes.
          Por um momento me senti paralisado. Eu não estava mais ali. Havia algo dentro de mim que não deixava que eu estivesse ali. Por alguns instantes pensei que talvez estivesse morto. Como eu poderia estar vivendo, me vendo, mas não estar me sentindo?
          Por mais algumas vezes isso se repetiu. Todas as manhãs quando você abria os olhos, destruía uma parte de mim. Tudo aquilo não era real e eu precisava dar um fim naquela sensação. Não conseguia mais viver sendo amedrontado pelos seus olhos cor de vinho. O seu calor me congelava e seu toque me enfraquecia. Enquanto você dormia eu tinha o poder, mas ao acordar eu não era ninguém. Você tomava conta de tudo, me sufocava. Seus longos cabelos ondulados me seduziam como se fossem anacondas me imobilizando até quebrarem todas as minhas costelas. Eu realmente ficava sem ar.
          Anoiteceu. Eu sei, você não podia lidar com a escuridão, mas eu já estava acostumado com ela. A escuridão trazia de volta a força que eu perdia ao te olhar. Você se encolhia, se recolhia para esperar um novo amanhecer, e enquanto isso eu podia viver o que me restava. Não me incomodava essa vida de te esperar dormir, mas eu não conseguia ter a vida de te ver acordar.
          Certa vez não quis esperar que seus olhos tornassem a me paralisar. O nosso lençol branco se travestiu de vermelho e aquele foi sim um belo dia. Eu não ouvi mais os seus suspiros mas você continuava bela, ainda era uma primorosa pintura. Você daquela forma, nua, quieta e coberta de sangue me trouxe tudo o que eu queria de volta. Me fez respirar novamente.
          Não me incomodou nem um pouco te ver daquela forma. Fiz tudo tão calmamente que me tornei o pintor daquela obra. Aos poucos seus lábios ficaram roxos, sua tão flamejante pele em gelo se tornou e seus olhos incendiados nunca mais se abriram a partir dali. Sufocada você me completava ainda mais, me serviu melhor estando ali lânguida, aguçando meus sentidos com seu cheiro pútrido me trazendo o alívio que eu tanto precisava.
            Ainda fiquei trabalhando a minha magnitude te olhando imóvel por um certo tempo. Relutei em te deixar ali, mas precisava retomar minha caminhada. Só não esperava que você me acompanhasse.

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